O corpo guarda.
Escrito dia 23.05.23 às 2h da madrugada.
Não sei se vocês já tiveram a sensação de revisitar uma memória corporalmente. Isso aconteceu comigo a uns dias. Eu vivi uma memória pela sensação do corpo sem a memória ter passado pela consciência. Claro que depois as lembranças relacionadas aquela sensação foram aparecendo, os cenários na minha cabeça. Porém, antes de eu conseguir pensar nisso, meu corpo sentiu. E no instante que aquilo aconteceu, não pude nomear o que estava vivendo, estava apenas sentindo a “memória” de uma experiência percorrendo o meu corpo. Era angústia?
Isso é doideira, porque tenho pensado muito sobre memórias, sobre narrativas, sobre pensamentos dentro da minha cachola relacionadas as coisas que vivo no presente. Nunca ficou tão claro pra mim como era viver isso. Não é que nunca tenha acontecido, eu só não me toquei das outras vezes. Não me toquei que a gente carrega tudo dentro da gente, não é só na cabeça, é em todo canto, da unha do meu dedo do pé até a ponta do meu cabelo. Eu carrego tudo dentro de mim. Carrego tudo que eu já senti, as sensações ruins, as boas, as confusas, as sem nome. E quando a gente entra em contato com coisas específicas nosso corpo lembra. Mas ele não só guarda, como se transforma, a gente vai transformando nossas memórias, nossas experiências passadas com o entrelaçamento de outras sensações, e o corpo cria algo novo. Cria sensações novas, ele relembra mas ele também muda. E o novo se mostra pro corpo. Ele constrói novas formas de viver.
Nesse fim de semana, eu vivi de novo uma lembrança que eu não sabia que estava armazenada na ponta do meu dedo, na minha gengiva dormente, no nó da minha garganta, no sangue correndo pelo meu corpo, na minha barriga cheia de ácido e no meu pé gelado. Porém estava ali, guardadinha. Posso dizer que foi difícil, entrar em contato com uma coisa que já me machucou, depois de tanto tempo. E foi intenso, porque estava sem forma. Porém aquilo foi se transformando, diante de uma lágrima minha que se encontrava com a lágrima de outra. Um abraço junto com um carinho com a ponta do dedo no meu braço esquerdo. E a "memória" do meu corpo continua se transformando, no dia seguinte diante das minhas costas deitada em areia quente, ou limpando meu pé frio com água velha que estava guardada a uns 3 meses dentro do carro, ou diante de um gole de milkshake que eu sei que se eu tomar demais vai me dar dor de barriga, mas que foi passada de uma mão outra para a minha. E não precisa ter nome nada disso, só precisa ter encontro do meu corpo com o corpo de outro.
Agradecimento especial a minha amiga Jas que tem sido um dos encontros de corpos mais significantes pra mim. Estava comigo enquanto eu sentia tudo isso ai, e ainda me levou pra praia para eu sentir mais.

